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Obras > Oropa, França e Bahia
1988

10. Oropa, França e Bahia

Num sobradão arruinado,
tristonho, mal-assombrado,
que dava fundos pra terra
(“Para ver marujos,
Tiruliluliu!
quando vão pra guerra”)
E dava fundos pro mar
(“Para ver marujos,
Tiruliluliu!
ao desembarcar”)

Morava Manuel Furtado,
português apatacado,
com Maria de Alencar

Maria, era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços
Ah! os seus braços roliços
Ah! os seus peitos maciços
Faziam Manuel babar

A vida de Manuel,
que louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda a noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de “Oropa, França e Bahia”

– Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria
– Estás idiota, Maria
Essas naus foram vintena
que eu herdei de minha tia
Por todo o ouro do mundo
eu jamais as trocaria!

Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim
Dou-te uma saia bordada
Dou-te leques de marfim
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim

Nada a mulata só queria
que Seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
pra ela ir ver essas terras
de “Oropa, França e Bahia”

– Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da Quinta do Aguirre,
umas queijadas de Sintra,
só pra tu te distraíre
desse pensamento ruim
– Seu Manuel, isso é besteira
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim

“Ó lua que alumiais
esse mundo do meu Deus,
alumia a mim também
que ando fora dos meus” [2x]
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus

“Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são” [2x]
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente, no pilão

Uma noite de luar,
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul
– Ah! Seu Manuel, isto chega
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul

-“Onde vais mulhé?”
– Vou me dana no carrossé
– “Tu não vais, mulhé,
mulhé, você não vai lá”

Maria atirou-se n’água,
Seu Manuel seguiu atrás
– Quero a mais pichititinha!
– Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido de minha tia
Vêm dos confins do mundo
De “Oropa, França e Bahia”

Nadavam de mar em fora
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia
Faz-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia
Seu Manuel era um “Boi Morto”,
Maria, uma “Cotovia”!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

– Continuam mar em fora,
navegando noite e dia
Caminham para “Pasárgada”,
para o reino da Poesia
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

– As eternas Naus do Sonho,
de “Oropa, França e Bahia”